| Falseando a Verdade |
Há alguns anos surgiu no boxe nacional uma nova figura: o mentiroso alarmista. Fazendo o tipo quero-aparecer-na-mídia-de-qualquer-jeito, estas personagens em sua maioria são caracterizadas por pessoas que tiveram no passado alguma projeção na imprensa. Por um motivo ou outro que não vem ao caso discutir no momento, tiveram suas ações reduzidas a uns poucos amigos da mídia. Entretanto, uma bem engendrada artimanha pode fazer com que a mentira se espalhe dando créditos a estórias inverossímeis. Se por um lado a criatividade de seus autores nos obriga algumas vezes a sorrir, por outro deixa-nos incrédulos que alguns meios de comunicação possam publicar as bobagens sem um mínimo de investigação. Felizmente, representam uma minoria. São dezenas de boatos e inverdades lançados nos últimos 5 anos. Mas o espaço aqui é limitado e portanto segue abaixo uma seleção de “apenas” sete (conta de mentiroso) mentiras, divulgadas sempre pelas mesmas fontes e nunca com a outra parte envolvida ouvida. 1) A mentira: “O adversário de Popó, Orlando Soto, nunca teria tido chance de disputar algum título por outro organismo que seja sério. É um completo desconhecido”. A verdade: O panamenho Orlando Soto lutou com Popó, em 2001. Logo na luta seguinte, após a derrota para o brasileiro, tornou-se campeão Continental das Américas do WBC Conselho Mundial de Boxe. Anteriormente ao combate com Acelino Freitas, havia disputado os títulos mundiais da IBF Federação Internacional de Boxe e da WBA Associação Mundial de Boxe. Além de títulos continentais da WBA e WBO Organização Mundial de Boxe. Portanto, foi escalado em disputa de cinturões nos 4 organismos respeitados no mundo. 2) A mentira: “Esse tal de Jauregui é muito fraco. Ninguém além da WBO daria alguma oportunidade a ele. Não serve para disputar nenhum tipo de título”. A verdade: Javier Jauregui, do México, antes de lutar com Popó, em 2000, havia sido campeão nacional do seu país, nos penas, uma categoria na qual os mexicanos são fortíssimos e defendido o cinturão em 8 oportunidades. Depois disso, tornou-se campeão Continental das Américas pelo WBC Conselho Mundial de Boxe, justamente nos super penas, categoria em que foi derrotado por Acelino Freitas. Após a derrota para o brasileiro, conquistou o título latino da WBA. E em 2003 tornou-se campeão mundial dos leves pela IBF Federação Internacional de Boxe. Portanto, foi escalado em disputa de cinturões nos 4 organismos respeitados no mundo. 3) A mentira: “Este título do Popó não vale nada. Nenhuma entidade de respeito reconhece a WBO. Nenhuma delas fará disputa de unificação”. A verdade: Tanto a IBF como a WBA mantém relações de cordialidade com a WBO. A WBA publica a relação dos campeões da WBO e a recíproca é verdadeira. Não são incomuns as disputas de títulos unificados entre as entidades. A própria conquista de Acelino Freitas unificando os títulos da WBO e WBA prova a ma fé na divulgação mentirosa. 4) O jornal paraense “O Liberal” divulgou recentemente que um brasileiro disputaria o título mundial do WBC Conselho Mundial de Boxe, categoria leve, em Belém. E informou o nome do adversário, um chileno. Só que o campeão mundial é outro, um americano. Logicamente, a luta não valeu o título do Conselho. Provavelmente, o jornal foi induzido ao erro. A mentira partiu de alguém interessado na divulgação de informação falsa. Mas ao divulgar a informação, o jornal paraense demonstrou que não fez nenhuma pesquisa para confirma-la. Nem com os demais meios de comunicação do país. E o Pará fez festa com a vitória do brasileiro...que não se tornou campeão do WBC. 5) A mentira: “Já que não ganhou no Pan-Americano, o Brasil irá disputar os próximos Pré-Olímpicos com países da Europa. Não tem chance. Não classificará ninguém para os Jogos Olímpicos”. A verdade: Os Pré-Olímpicos são disputados com países dos mesmos continentes como, por exemplo, as Américas. Nunca entre continentes diferentes. Sempre foi assim. Não existe possibilidade de engano na divulgação de informação diferente – só propositalmente. Já fica difícil entender que alguns da mídia não tivessem tempo para investigar o logro. Porém, o que mais se lamenta é que a imprensa especializada brasileira tenha sido enganada por este embuste, como foi o caso da Combat, excelente revista de lutas. Resultados dos Pré-Olímpicos? O Brasil foi o 4° maior colocado em número de atletas de boxe classificados para os Jogos Olímpicos nas 3 Américas juntas, com 5 boxeadores e atrás somente de Cuba, Estados Unidos e Venezuela. São 42 os países que compõem as 3 Américas. 6) A mentira: Jornalistas brasileiros receberam telefonemas, informando que a Confederação Brasileira de Boxe havia retirado seu site do ar (sic), na internet, com objetivo de esconder a internação do pugilista Fábio Garrido no hospital, após o nocaute sofrido diante de Mário Soares. A verdade: Quanta ingenuidade. Os jornalistas acessaram o site da Confederação e comprovaram, não só que o mesmo estava ativo, como também tiveram acesso às notícias diárias sobre o estado de saúde do boxeador. E como seria possível esconder um fato que foi transmitido “ao vivo” pela TV? Esta tentativa de propaganda contra a Confederação teve efeito contrário, pois acabou gerando dias seguidos de acessos acima da média diária no site da entidade. 7) A mentira: “Vem ai os Jogos Olimpicos de Atenas e os nossos leitores irão assistir outras aberrações, não sendo de estranhar turbulências pelas decisões eletrônicas, como aconteceu escandalosamente na Olimpiada de Seul-Coreia em 1988” (sic). A verdade: Este é um exemplo de como a verdade é alterada, de acordo com os interesses de quem a divulga. Quem propalou o engodo não poderia supor que seria contestado por um fato acontecido 16 anos antes. O que aconteceu foi justamente o contrário. As Olimpíadas de Seul, em 1988, foram as últimas em que o arcaico sistema de marcação de papeletas foi adotado. Justamente, devido a uma marcação escandalosa, em Seul, a AIBA resolveu acabar com o sistema de marcação antigo. A partir dos Jogos Olímpicos de Barcelona 1992, as regras mudaram e foi implantado o sistema de marcação eletrônica de julgamento. Assim como a mentira do item 6, o feitiço virou contra o feiticeiro. Se o sistema de marcação em Seul 1988 é considerado um fracasso por quem divulga a informação, isto significa que o novo sistema, o eletrônico deveria ser o adotado por todos que atuam seriamente no boxe olímpico. Estes foram alguns exemplos do que falsamente é divulgado no boxe no nosso país. Nem sempre tomamos conhecimento imediato das asneiras publicadas. E em muitas destas vezes, a propagação destas lorotas alcança alguns meios de comunicação com credibilidade. Cabe portanto a quem recebe a informação, um mínimo de investigação antes da publicação. É a única forma de impedir os “quero-aparecer...” de provocarem estragos no esporte do Brasil. Daniel Fucs – Vice-presidente CBBoxe |
| 25/02/2005 |
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