FESTA URUGUAIA

Nos últimos tempos, empresários de países que até então eram praticamente desconhecidos no cenário do boxe nacional aprenderam a utilizar intermediários brasileiros para “alavancar” a carreira de boxeadores daquelas nações.

Nos anos 80 e 90 do séc 20 a Argentina era a principal arrecadadora dos “talentos” brasileiros. Boxeadores escolhidos a dedo, praticamente por apenas dois serviçais travestidos de empresários no Brasil, encarregados de apontar brasileiros que não oferecessem riscos aos adversários, eram levados ao exterior para serem batidos, normalmente com muita facilidade. A tática para enganar a imprensa e público nos demais países era simples. Aumentavam desproporcionalmente o número de vitórias do boxeador brasileiro, diminuía-se o de derrotas e a fraude estava pronta. Algumas vezes simplesmente invertiam os números de vitórias com os de derrotas. Exemplo: um boxeador com cartel de 2-8 tinha seu registro divulgado no exterior como 8-2. E para complementar a farsa, o ranking brasileiro era confeccionado, não oficialmente, por um destes agentes que se utilizava da Confederação Brasileira atuando como eminência parda na instituição.

Como contra-partida, os mesmos “empresários” brasileiros, quando promoviam eventos no Brasil, recebiam estrangeiros na mesma situação. Os boxeadores estrangeiros, na maioria das vezes latino-americanos, eram apresentados com cartéis falsos à imprensa brasileira. Isto quando não acontecia o pior: usava-se um boxeador estrangeiro com nome falso para que o cartel de lutas, se pesquisado, não apontasse tantas derrotas. E o torcedor e mídia nacionais, enganados, vibravam com a vitória dos brasileiros. Uma emissora de TV aberta que apresentava boxe duas vezes por mês acabou com a festa. Demitiu seu comentarista que não denunciava estes atos e parou com as transmissões de boxe. Lamentavelmente.

A partir da segunda metade dos anos 90, a administração da CBBoxe mudou de mãos. A entidade exigiu que empresários, agentes, intermediários e etc. passassem a trabalhar como empresários, agentes e intermediários. E nada mais. O ranking brasileiro passou por uma reformulação. Ao lado do nome de cada atleta estão sendo divulgados a quantidade de vitórias, derrotas e empates. E os pugilistas estrangeiros que vêm ao Brasil têm seus registros de lutas divulgados pela Confederação.

O que fizeram então os dedicados agentes? Alguns retiraram-se da Confederação e divulgam rankings próprios de suas empresas, conforme seus interesses. Mudou a tática. Boxeadores sem registro na Confederação são levados para servirem de escadas no exterior. Como não estão no ranking brasileiro, a situação agrada aos promotores estrangeiros. Consultam-se sites na Internet que aceitam quaisquer informações de cartéis e com isso se cometem os mesmos desatinos junto à imprensa e povo daqueles países. E uma nova estratégia. “Arrumam” lutas no Brasil contra adversários que ninguém conhece para aumentar o número de vitórias de quem se pretende levar ao exterior. Muito engenhoso, mas perigoso. Perigoso para os boxeadores nacionais. Daí a quantidade de nocautes sofridos pelos brasileiros.

Há até quem critique publicamente esta forma irresponsável de trabalhar. Mas a tentação de ganhar alguns trocados é grande. E a máscara cai quando flagrado. A velha expressão “Façam o que eu digo e não o que faço” parece adequada neste caso. E a cara permanece lavada.

O número de países que se valem de brasileiros aumentou. África do Sul, Alemanha, Chile, Costa Rica e até o Uruguai que tem atualmente um boxe profissional dos mais pobres da América do Sul exulta em festa com as vitórias sobre brasileiros.

O ano de 2008 mal começou e quatro brasileiros, nem sempre registrados na CBBoxe, saíram do Brasil para serem derrotados no exterior. Três deles por nocaute. Das quatro derrotas, duas foram no Uruguai, uma na África do Sul e outra na Costa Rica. O Uruguai tenta recuperar seu boxe que no passado tinha maior sucesso. Descobriu que sempre encontrará alguém no nosso país, disposto a convencer algum cidadão brasileiro a viajar para o exterior.

E se o brasileiro retornar com alguma seqüela grave, sempre haverá uma desculpa: “Isso faz parte do jogo”. É preciso que se tenha em mente que num combate com um mínimo de equivalência técnica, acontecer um imprevisto é um acidente que realmente faz parte do jogo. Mas levar alguém que já se sabe que será derrotado e muitas vezes antecipadamente por nocaute, é mais do que negligência. É irresponsabilidade e má fé.

Daniel B. Fucs – Vice-presidente da CBBoxe


12/02/2008


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