| OS LIMPA CARTEIS |
Nos últimos tempos, uma nova especialidade surgiu no cenário esportivo nacional: o limpa cartel. Não é novidade em nenhuma parte do mundo que um boxeador de destaque, após uma derrota, realize uma ou duas lutas contra oponentes de nível inferior como forma de coloca-lo novamente em evidência. A partir daí, normalmente o pugilista faz um combate contra adversário de melhor qualidade e uma terceira vitória pode coloca-lo ao alcance de uma nova luta por título mundial. Entretanto, o que acontece no Brasil é totalmente diferente e visa específicamente a construção de um registro de algum boxeador contra adversários que muitas vezes não são pugilistas de verdade. Em algumas ocasiões não se tem certeza que o combate realmente aconteceu. O advento da internet e suas milhões de informações sobre boxe ajudam os mal intencionados na divulgação das barbáries. Não é incomum vermos cidadãos brasileiros, muitas vezes sem registros de boxeadores na CBBoxe, serem seguidamente derrotados no exterior. Estas derrotas são intercaladas com anunciadas vitórias no Brasil, na maioria das vezes enfrentando desconhecidos, pessoas de quem nunca se ouviu falar. Existem casos de boxeadores que nas últimas 9 / 10 lutas intercalaram 5 derrotas no exterior com 4 vitórias no Brasil contra oponentes que estreavam ou que nunca se soube tivessem vencido uma luta de boxe. A essa prática se deu o nome de Limpa Cartel. Como se as vitórias contra adversários de quem nunca se ouviu falar pudessem limpar do registro as derrotas em combates verdadeiros. “Agentes” e “empresários” utilizam o método para aumentar o número de vitórias de quem pretendem levar ao exterior com o objetivo de serem “escadas” para pugilistas estrangeiros. Engana-se o público aficcionado no exterior da mesma forma que boxeadores de má qualidade e as vezes até suspensos em seus países de origem têm seus carteis maquiados no Brasil e apresentados como boxeadores do primeiro escalão internacional. E as derrotas brasileiras no exterior não são divulgadas pela imprensa nacional especializada. No Brasil, talvez o site da CBBoxe seja o único a divulgar de forma regular os resultados dos brasileiros no exterior. E junto da montanha de elogios pela divulgação chegam algumas correspondencias sugerindo silêncio nas derrotas no exterior. Mas a coisa não acaba por aí. Diversas pessoas que criticam a prática do Limpa Cartel no Brasil fazem uso do mesmo quando existe interesse financeiro, esquecendo do que falaram e muitas vezes do que escreveram. Criam-se empresas, até com aparencia oficial, com objetivo de regularizar a situação da promoção e mesmo boxeadores e ex-boxeadores que sofreram com o fato levam colegas para se arriscarem no exterior em troca de algumas centenas de dólares. Já aconteceram notícias no exterior de brasileiro desconhecido ter sido levado ao hospital depois de combate desnivelado. Mas como num combate nivelado a ida ao hospital também pode acontecer, o fato não alcançou interesse maior. Afinal, não morreu ninguém. Isso sim seria notícia. Durante a conexão realizada em Pequim para embarque do vôo que levaria os passageiros participantes para convenção anual do WBC Conselho Mundial de Boxe em Cheng Du, China, foi possível ouvir claramente dos representantes da federação mexicana comentarios para quem quisesse ouvir que aos boxeadores brasileiros bastava um golpe para coloca-los na lona. È claro que os mesmos ficaram sem ação quando o signatário do presente texto indagou o nome da autoridade no Brasil que permitiu tais combates além de informar que a maioria dos brasileiros que lutam no exterior não têm registro na Confederação. Os delegados mexicanos não souberam responder o motivo de permitirem que estrangeiros lutem sem permissão. É lógico que se as autoridades de todo o mundo exigissem autorização da entidade maior de cada país, os espertos “agentes” brasileiros perderiam seus fáceis ganhos. O fato da maioria das nações não se importar com autorizações e com isso permitir que pessoas comuns, com pouco treino ou atividade, enfrentem bons atletas em seus países, ultrapassa a fronteira da vergonha de fornecer explicações como aconteceu na China. Existe algo mais grave. A saúde dos cidadãos brasileiros. Quando um brasileiro vai boxear no exterior sem a mínima equivalência esportiva corre o risco de voltar seriamente lesionado. Mas parece que nada disso importa. Ninguem é mais esperto ou bobo no boxe internacional. Os promotores estrangeiros sabem quem estão contratando. Sabem até em que round o combate deve terminar, com margem de erro de mais 2 ou menos 2 rounds. O que importa é o resultado da última luta do brasileiro. E para isso contam com o auxilio do limpa cartel, se possível com o anúncio que ganhou algum título inventado de última hora no Brasil. E quanto a nós? Bem, a nós resta a esperança de continuarmos lendo sobre as lutas de brasileiros no exterior nas páginas esportivas de jornais estrangeiros. E não nos obituários. Daniel B. Fucs Vice-presidente CBBoxe |
| 3/01/2009 |
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